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Monetização de dados: sua empresa está pronta?

05/02/2020

Tempo estimado de leitura: 4 minutos

Monetização de dados é uma tendência para as empresas criarem fluxos de receita, mas é preciso garantir a segurança e privacidade dos usuários.

A monetização dos dados dos usuários é uma forma de criar novas receitas para uma companhia. No entanto, com várias legislações exigindo uma melhor transparência com a segurança da privacidade do usuário, muitas empresas parecem não estar alinhadas ainda a isso. A sua está?

Veja, por exemplo, a Avast. A empresa de cibersegurança é famosa por oferecer antivírus gratuito aos seus consumidores, mas se viu em um novo episódio do uso indevido de dados, como mostrou uma investigação da Motherboard (braço de tecnologia do site Vice) e o site PCMag.

O relatório desses dois portais mostrou que a Avast vendia dados de navegação na internet (tanto mobile quanto desktop) altamente confidenciais para grandes empresas. A transação acontecia por meio da Jumpshot, subsidiária da companhia de antivírus.

Para se ter uma noção, a Avast tem 435 milhões de usuários ativos por mês, enquanto a Jumpshot tem dados de 100 milhões de dispositivos. Entre os clientes da companhia, já passaram e continuam marcas famosas como Google, Yelp, Microsoft e MCKinsey.

Após a divulgação do relatório da Motherboard e PCMag, a Avast anunciou, no dia 30 de janeiro, o encerramento das operações da Jumpshot. “Qualquer prática que comprometa a confiança do usuário é inaceitável para a Avast”, disse Ondrej Vlcek, CEO da empresa, em comunicado.

Como acontecia a monetização de dados no caso da Avast

A Avast disponibiliza um programa antivírus gratuito para dispositivos. Como aponta o relatório, o software coletava dados e a Jumpshot os empacotava para vender por meio de produtos, que poderiam incluir frações desses dados, ou o “All Clicks Feed”, com detalhes mais específicos.

Sobre o “All Clicks Feed”, a Avast conseguia rastrear todo o comportamento do usuário, cliques e movimentação, como:

  • Pesquisas de locais e coordenadas de GPS no Google Maps.
  • Visitas em páginas de empresas no LinkedIn.
  • Vídeos específicos do YouTube.
  • Data, hora e termos buscados em sites pornográficos, mesmo em modo anônimo.

Embora os dados não incluam informações pessoais, como nomes de usuários, eles ainda contêm uma grande quantidade de dados de navegação específicos. Mas, segundo o Motherboard e PCMag, há grandes possibilidades de que o anonimato de certos usuários seja revertido.

Como mostra um estudo de 2017 da Universidade de Stanford (Estados Unidos), é possível identificar pessoas a partir de dados anônimos de navegação na web. Um dos meios é mesclar os dados obtidos com a base de dados da empresa que contrata esses pacotes.

“A desidentificação mostrou ser um processo muito suscetível a falhas e de dar errado”, disse Günes Acar, pesquisador da Universidade Católica de Lovaina (Bélgica), em entrevista aos sites. Para ele, uma empresa pode rastrear um usuário até identificá-lo após cruzar os bancos de dados.

Por exemplo, os dados da Jumpshot tinham, em cada URL visitado, um carimbo de data, hora e até milissegundos. Uma empresa poderia pegar a própria base de dados para conferir esse carimbo e identificar qual usuário visitou a página e criar ações de marketing personalizadas.

Monetização dos dados é tendência, mas exige preparo

Embora o caso da Avast possa gerar desconfiança para os usuários, a monetização dos dados é uma maneira da sua empresa agregar valor aos produtos e serviços oferecidos aos seus clientes. Mas, claro, isso exige que você garanta a privacidade e segurança desses consumidores.

“A empresa deve entender qual é a finalidade de monetizar seus dados. São ações com legítimo interesse e que trazem benefícios para o usuário? A outra companhia vai fazer bom uso desses dados?”, questiona João Del Nero, gerentes de vendas especialista em Monetização e Data Analytics da Claro.

Outro ponto, destacado por Del Nero, são as legislações. Por mais que a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) ainda não esteja em vigor, ela trará mais clareza para as empresas que esperam criar receitas com os dados.

“[Monetização dos dados] é uma tendência, mas que antes as empresas faziam uma análise de risco financeiro. Até porque não tinha lei que instruía e orientava o quanto você poderia fazer com os dados ou onde usá-los. Hoje elas estão mais seguras para isso”, explica Del Nero.

Por sinal, isso é já bem comum no dia a dia. Certamente você já foi em um supermercado e teve a chance de usar o Wi-Fi grátis da loja em troca de desconto em produtos de limpezas, por exemplo.

Isso pode ser uma forma de monetização entre a rede varejista e a marca. A partir do momento em que você se cadastra para ter o Wi-Fi gratuito (opt-in) e o desconto, você pode ser impactado por outras ações de marketing. Mas tudo em conformidade com a legislação.

Ou seja, se a sua empresa vai começar a monetizar os dados, é preciso conhecer bem a base de dados para criar as melhores estratégias de ganho de receita. Até porque, se você não sabe que vendeu os dados de um cliente que não aceitou o opt-in, além o seu negócio estar sujeito a multas regulatórias, seu negócio pode passar a ter uma reputação negativa, assim como a Avast.

Principais destaques desta matéria:

  • Monetização dos dados exige conformidade com as leis;
  • Mas, empresas podem vender dados sem garantir a segurança e privacidade dos usuários;
  • É o caso da Avast, em que coletava dados dos clientes e os vendia através de uma subsidiária;
  • Monetização dos dados é uma maneira de empresas agregarem valor aos produtos e serviços oferecidos aos seus clientes.

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